quarta-feira, 9 de janeiro de 2008

saudae da época que podia culpar meus 13 anso pelos textos ruins.

Hoje, voltando pra casa, me dei conta de que não choro mais. Ou melhor, não choro por motivos que sejam pessoais, entende? Não choro por não acreditar no amor, não acreditar no sexo, por planejar um futuro que eu sei que não dará certo, por ter esquecido todo o meu passado. Agora, quando choro, é por algum outro motivo banal, como um livro ou talvez um filme no cinema. E mesmo assim, quando me destranco e choro, não é um choro assim, desatado, é um choro curto e seco. Nem sei se minhas lágrimas ainda tem o mesmo gosto, pois não provo uma a séculos.
Agora, para que eu consiga chorar, é preciso 'um momento todo especial', sabe? Não consigo mais chorar no meio da rua, nem na frente de amigos, nem em banheiros sujos como eu costumava fazer frequência. Para chorar com um livro, por exemplo, é preciso que eu esteja sozinha, no último andar de um prédio com vista pro mar, e que tenha passado, pelo menos, das duas horas da madrugada. Só assim que me atiro no sofá vermelho e choro silenciosamente, um choro duro. Pra depois levantar, abrir as janelas e olhar de cima o mar, as pessoas jogando carta em volta de uma mesa redonda, um ou dois jovens como eu assistindo um filme na TV, ou carros passando em poças que não secam nunca.
Já chorar no cinema, só me permito quando estou sozinha, e esse hábito já vem de meses. A maior parte dos filmes bons que vi no último ano, foi quando eu estava sozinha. As vezes não era nem pelo próprio filme mesmo, era mais pela companhia. Não a ausência de, mas pelo fato de a moça loira de três cadeiras pra direita, com cara de médica e marido de camisa branca não me conhecerem. Pelo simples fato de eles nem reparem na minha existência. E mesmo assim, passarmos duas horas sentados lado a lado, eu ouvindo os cochichos deles, e eles me olhando uma ou duas vezes com o canto dos olhos e pensando 'Pobre jovenzinha, sozinha no cinema num sábado a tarde, assistindo um filme triste desses, sem ninguém que possa comfortá-la.' Mal sabem eles, que é por isso mesmo que não convido ninguém para ir ao cinema comigo. Pra poder ver o filme que eu quero, na cadeira que eu quero e passar duas horas de boca fechada sem falar com ninguém e simplismente esquecer que ainda moro nessa cidade, que ainda tenho família, amigos e um monte de gente que espera que eu amadureça um dia.
ás vezes abro uma exceção, e convido alguém legal pra ir no cinema comigo. Geralmente alguém que compartilha do mesmo desejo de silêncio e paz que eu, mas desse tipo de gente, só conheço uma. ás vezes convido alguém que tenha bom gostos para filmes e que goste muito de falar, o que indica que no final da sessão eu posso continuar mais um bom tempo de boca fechada, ouvindo alguém falar eternamente sobre o filme. Aí só me concentro no meu café e tento acompanhar o raciocínio.
Outras vezes não. Outras vezes convido um terceiro tipo de pessoa, que só descobri que existe recentemente. Alguém com quem eu estou ou tenho pretensão de um dia ter algum tipo de relacionamento amoroso ou sexual. Alguém bacana, com quem eu possa ter prazer de sentar ao lado e dividir a única coisa que pra mim ainda vale cem por cento a pena.
Pois fiz isso hoje, e tive uma surpresa. Além de todas as qualidades e defeitos e histórias e coisas absurdas que faz não sei porquê, eu tive certeza do que já suspeitava. Sou viciade em cheiros. Não cheiro de perfumes, coisas assim, cheiros de pessoas. Cheiro de cigarro, misturado com um cheiro doce, que não era da sala, nem do shampoo, nem de outro lugar nenhum, era dela. O cheiro que até então eu não tinha conseguido decifrar, já que ele andava sempre misturado a vozes, cheiro da rua, cheiro do ar. Mas ali, ela era de alguma maneira só minha, escondida dos olhos dos outros, chorando em filmes bobos. Já eu, não era mais nada nem ninguém além de um ser humano sem vida lá fora, que só queria passar 'duas horas boas, duas horas secas, duas horas limpas' sem pensar em nada, sem me preocupar com nada, sem esperar nada, além de querer que aquele cheiro fosse meu e eu nem sei se eu queria, eu nem sei se eu podia querer, se nao seria esse o cheiro que me sufocaria num quarto escuro depois dalí. e pra quem a tempos nao queria nada como eu, aquele cheiro me segou, secou minha garganta e espero agora até o dia em que ele se torne real, pois sei aonde onde os cheiros se escondem e tenho vontade de sair correndo para qualquer lugar e experimenta-lo sem pensar em mais nada e me dá assim um spubito de levantar, pegar na mão dela, disparar até o proximo taxi e dar um endereço qualquer. mas tenho medo e enão me afundo na cadeira e imploro pra ue o filme acabe logo, para que esse cheiro se disipe e a tortura acabe de uma vez por todas e eu caia de volta na vida suada e infeliz que levo desde a ultima vez que me senti assim, e ja faz tanto tempo meu deus.

sábado, 15 de dezembro de 2007

só porque eu leio esse texto todos os dias.



você.
Você é vinho, Leminski, jazz, João Gilberto, carne de panela, Paris, Godard, campo, silêncio, frio, Neruda, música clássica, meia luz, Outubro, Fernando Pessoa, Piazzola, lareira, Manhattan Conecction, café com licor, jornal de manhã, rádio Gaúcha no chuveiro, sebos, loção pós barba, mesa na rua, melancolia, mais vinho, Kurosawa, faroeste, jornalismo literário, seus filhos, planos, alunos, Clint Eastwood, Claudia Cardinale, romances policiais, filme B, dirigir de noite, pretzel, preto e branco, uma tristeza tão grande guardada nas coisas mais pequenas, uma ferida aberta mas muita vontade de fazer diferente, muita vontade de viver. Você é cerveja, Mario Quintana, rock, Chico Buarque, massa a bolonhesa, Cidade do México, Tarantino, praia, barulho, 40 graus e subindo, Vinícius, black music, holofote, Fevereiro, Fernando Sabino, Beatles, piscina, Seinfield, chope com batata frita, livro no final da tarde, revista de fofoca na banheira, brechós, perfume de bebê, área de fumantes, Carnaval, mais cerveja, Almodóvar, filme de guerra, poesia modernista, seus amigos, sonhos, amores, Charles Chaplin, Johnny Depp, biografias de estrelas de cinema, filme noir, caminhar de manhã, sorvete, confete e serpentina, em gestos delicados uma generosidade tão bonita, uma mente aberta e muita vontade de ser feliz, muita vontade de viver.

Mariana Difini